Selton Mello por Fernanda Torres: “Nasceu com a benção de Melpômene e Tália, da tragédia e da comédia”
Atriz indicada ao Oscar compartilha, no catálogo do 54º Festival de Cinema de Gramado, carta escrita ao colega e amigo
Estrelas de “Ainda Estou Aqui”, primeiro longa-metragem brasileiro a vencer o Oscar de melhor filme internacional, Fernanda Torres e Selton Mello construíram uma sólida parceria no audiovisual brasileiro e uma grande amizade atrás das câmeras. Em celebração ao Kikito de Cristal que Selton receberá no 54º Festival de Cinema de Gramado, Fernanda compartilha, especialmente para o catálogo do evento, a carta que escreveu ao amigo e colega logo no encerramento das filmagens do longa dirigido por Walter Salles. Leia abaixo na íntegra:
Raros são os atores capazes de transitar entre um drama histórico como “Ainda Estou Aqui” e as irresistíveis bobagens de “Anaconda”, entre Rubens Paiva e Jack Black; entre André, de “Lavoura Arcaica”, e Chicó, do “O Auto da Compadecida”. Acontece que Selton Mello nasceu com a benção de Melpômene e Tália, da tragédia e da comédia, e entende, como poucos, que uma musa não existe sem a outra.
Quando me pediram um texto sobre esse imenso parceiro, amigo e irmão, reli uma breve carta que escrevi para o livro do Selton, logo no fim da filmagem de “Ainda Estou Aqui”, filme que não existiria sem o abismo causado pela ausência do Selton em cena. Pensei em reeditá-la, mas a carta é tão íntima e verdadeira, e fala tanto da essência e da importância do Selton para mim e para nós todos, que preferi mantê-la como foi escrita, um documento daquele nosso claro instante.
“Selton amado,
Te escrevo um dia depois da cena de Rubens e Eunice no quarto, fechamento da nossa parceria no “Ainda Estou Aqui”. Refilmamos a cena, depois de mais de mês de convivência, já amigos, já casados e cúmplices na vida e na arte.
Jamais vou esquecer da nossa conversa na maquiagem, que começou com a sua retrospectiva de ator mirim e terminou numa competição desenfreada, ao longo da filmagem, dos dinossauros com os quais tivemos a honra de trabalhar. Você mandava um Moacyr Franco e eu um Sebastião Vasconcelos; Wilker e Walmor comuns aos dois; Paulo José íntimo seu, mas parente meu por osmose familiar; Jardel Filho só meu, Ítalo todo seu, embora meu, também, por tabela, pela amizade com os Fernandos.
Você foi ator mirim e eu cria de coxia, somos veteranos nessa guerra e jovens ainda para tanta história. Você já foi elenco de apoio de “Olho no Olho”, novela mutante das sete, e eu vendi caipirinha em pó. Você conheceu o ostracismo na adolescência e eu a crise dos trinta, quando comecei a escrever, meio arrependida de ter seguido a profissão dos pais. Você foi para trás das câmeras dirigir e eu fui buscar uma alternativa nas letras, para não ter mais que me maquiar.
Na raiz, no entanto, somos atores mesmo, gostamos do ofício, do tijolinho que se conquista a cada tomada. Jamais vou esquecer de você pedindo para repetir um take que havia começado promissor no banheiro, mas que, na porta, já havia te deprimido e, no armário, já o havia feito desistir da profissão. É o resumo da nossa conquista diária de detalhes mínimos, imperceptíveis, mas que separam um instante vazio, em cena, de um momento sublime, que vale a pena ser registrado.
Você é uma mistura indefinível de domínio total do ofício de ator com um desconforto eterno de ter que se expor ali. A desconfiança é sua reação primeira, talvez pelo acúmulo de roubadas e vexames nos quais já se meteu. O ensaio te incomoda, a repetição, o risco de perder o frescor, acompanhado do temor de entregar algo medíocre. No avançar dos trabalhos, no entanto, vê-se, no seu rosto, o prazer de tornar uma cena sua, de fazê-la própria, de dominá-la numa medida delicada, humana e verdadeira, como te ensinou o Paulo José. Por fim, a repetição já não te parece tão inútil e você se lembra até com saudade e orgulho do desagrado da preparação.
Eu não sabia que a tua família havia saído de Passos, em Minas, para investir na sua carreira promissora de criança na televisão. E que o ostracismo, na adolescência, havia te pesado tanto e tão cedo. A responsabilidade de não ter o direito de fracassar perante a vida e a família. Eu não passei pelo trauma da carreira mirim, embora tenha começado cedo, mas cresci com o peso de que jamais me igualaria à minha mãe, e isso carregando o nome dela. Já nasci perdendo, Selton, e, nesse sentido, com o mesmo sentimento de falência e exposição que o seu.
Somos parecidos, duas crianças veteranas e, hoje, adultos anciãos. Temos amor pelo gauche, pelo fora do lugar, pelos atores que experimentaram a decadência, em algum momento da vida. Somos almas antigas, Selton, já erramos muito e nos arrependemos, o que nos fez desenvolver um apego enorme pela falência e o fracasso.
Você virou dublador na adolescência para continuar pelas beiradas de uma profissão que te virou as costas. E, num momento triste, trágico, num estúdio de dublagem de desenhos animados, você aprendeu a modular a velocidade e a clareza da emissão. Ao contrário de mim, você sabe que não precisa se expressar tanto com o rosto, se a intenção da fala estiver precisa. Você acerta sempre de primeira, enquanto eu só engato na quarta tomada. Eu aceito a indicação do diretor como um cachorro bem treinado, mas você desconfia sempre, apostando no próprio taco.
Quando fizemos “Os Normais”, fiquei meio abismada porque, de perto, parecia que você não tinha feito nada. Depois, quando via a cena no ar, estava tudo lá, todas as intenções na modulação corretíssima das palavras, no ritmo e na fineza ímpar. Eu, ao contrário, sacolejava o corpo, mexia a cabeça, ria alto e exagerava em uma tomada de dois segundos, uma Carmen Miranda fora de controle, enquanto você era todo humor inglês. Eu te admiro muito, Selton, o bebê idoso que você é. Carisma é algo difícil de definir, mas que você tem de sobra.
Fomos parceiros num comercial de banco por três anos, lembra? Você odiava ser fotografado e eu dizia, “vamos, Selton, ri com esse cartão na mão para a gente ir logo pra casa”, e você ria, desconfortável e meio me agradecendo pelo variar de poses, que tornava mais breve o seu suplício. Esse desconforto eterno, misturado com a profundidade com que você enxerga a nossa profissão, o teu olhar demasiado humano para a fragilidade de nós todos, a sua sutileza, a tua mineirice, a maneira ao mesmo tempo íntima e formal com que você se aproxima da gente, esse mistério que você tem, essa melancolia de palhaço, tudo isso dá uma vontade enorme de que você queira, e permita, o nosso carinho e amizade.”
Evoé, Selton!
Fernanda Torres, atriz
Realização
O 54º Festival de Cinema de Gramado é apresentado por Ministério da Cultura, Secretaria de Estado da Cultura e Petrobras. Lei de Incentivo à Cultura. Apresentação: Petrobras. Patrocinador Master: GAV Hotéis e Resorts. Patrocínio: Stella, Persol e Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Copatrocínio: Banrisul Seguros. Hospedagem Oficial: Laghetto Hotéis, Resorts & Experiências. Transmissão Oficial: Canal Brasil. Café Oficial: 3 Corações. Cia. Aérea Oficial: Azul. Mídia Partner: SBT. Apoio: Hasam Group, O2 Pós, Globo Filmes, Vinícola Miolo, RBT Internet, Brutal Fruit e Cinema Paradiso. Apoio Institucional: Fundacine RS, APTC RS, SIAV RS, ACCIRS, Assembleia Legislativa, TVE RS e Museu do Festival de Cinema de Gramado. Agente Cultural: AM Produções. Promoção: Prefeitura de Gramado. Financiamento: Iecine, Pró-Cultura, Secretaria da Cultura, Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Realização: Gramadotur e Ministério da Cultura.

































